Eu vi o Inter vencer o Grenal do Século de virada com dois gols de Nilson e encaminhar vaga pra final do brasileiro de 1988 e pra libertadores do ano seguinte.
Eu vi o clima de soberba e de já ganhou(do Bahia).
Eu vi o Inter “cavalo paraguaio” sendo vice brasileiro contra o Bahia, surpreendentemente.
No ano seguinte eu vi o Inter pegar o Olímpia do Paraguai na semifinal de libertadores de 1989, fazer um gol fora e ficar a um empate da segunda final de libertadores da história.
Eu vi um clima de arrogância e soberba se criar entre os vermelhos.
Eu vi o Inter perder o jogo de volta pro Olímpia por 3×2, e perder a vaga à final nos pênaltis.
Eu vi o Inter perder pro grêmio em mais de uma década, uma década fria, onde um gauchão e uma copa do Brasil nos valeram o mundo.
Eu vi Fabiano acabar com o tricolor e os dizeres: “Cinco muito, Grêmio”.
Eu vi Dunga fazer cagadas o ano todo e depois se atirar na área no ultimo jogo de 1999 e nos livrar do rebaixamento.
Eu vi o Mahicon Librelato se atirar na área do Paysandu e fazer a vitória mais bem quista da história, nos livrando do segundo rebaixamento, em 2002.
Eu vi o Inter ser pequeno a ponto de disputar apenas Copas do Brasil, indo jogar contra “Chapadão” e sair de lá com um suado 0×0 numa tarde quente de domingo.
Eu era pequeno, e me lembro de um inter frio, apequenado em campo, que não dava medo em ninguém, que não afligia o torcedor adversário e nem ao menos o seu próprio.
Eu vi duas décadas de lamentações serem necessárias para que a humildade do clube do povo pudesse trazer de volta a nossa grandeza.
Era 2003, não me lembro muito bem quando, e eu vi Fernando Carvalho ser aprovado como Presidente do Inter.
Eu vi o Inter de imediato contratar Sangaletti, e outros jogadores que pelo menos tinham nome.
Eu vi o Inter contratar Fernandão Lúcio da Costa, do Olimpyque de Marseille, da França.
Eu vi o Inter ter um líder em campo e de se classificar para um torneio Internacional, a Sulamericana.
Nas semifinais eu vi o Inter tomar 4×2 na bombonera e ter que fazer 2×0 em casa para se classificar, mas que conseguiu apenas um 0×0.
Era, 2005. Eu vi o Inter receber o super campeão dos anos 2000, o Boca Juniors da Argentina, no Beira-Rio, e Fernandão se atirar na pequena área para marcar o 1×0 da vitória, nos 47 do segundo tempo.
Eu me lembro de uma semana depois pegar o carro com minha mãe, e ir assistir ao jogo de volta, numa Bombonera lotada, ver Clemer caído com a mão no rosto por causa de um rojão da torcida adversária, e a partir de então ver o Inter se amassado pela Boca Juniors. Foi muito, foi o bastante. 4×1 para os hermanos.
No mesmo ano, eu vi o Inter Grande, grande como nunca. O Inter que não tinha medo algum e metia medo em todos os adversários.
Eu vi o amor enlouquecido voltar, as noites mal dormidas, o coração bater mais forte, o time ser praticamente perfeito e invencível.
Eu vi Tinga ser derrubado na área do Pacaembú e ser expulso por Sveiter no jogo contra o Corinthians, reta final do Brasileiro de 2005. Eu me lembro de ter ficado tenso e loucamente enraivecido.
Eu vi o Inter mais empolgante da década, até então, ser vice campeão “moral” do brasileiro mais roubado da história.
Em 2006 eu vi o inter jogar com sangue nos olhos e entrar em campo no Gauchão como se fosse um campeonato mundial, e ser vice sem uma derrota sequer (Exceto uma contra a Ulbra, na fase de grupos).
Eu vi os colorados reclamando do gol qualificado (fora de casa vale mais em critério de desempate).
Eu vi o Inter passar apuros contra o Pumas no Beira-rio, e ir pro intervalo perdendo de 2×0.
Eu vi Fernando Carvalho descer das cabinas e ir ao vestiário no segundo tempo, exigindo um time com mais garra.
Eu vi o gênio da ala direita, Ceará, cruzar certeiro na cabeleira do Capitão, que tabelou para o meio da área, e vi Adriano Gabirú dar um peixinho e fazer o terceiro gol do inter. Eu pulei, eu chorei.
Eu vi o Inter fazer três gols e a virada mais histórica da década construída diante dos meus olhos.
Eu me lembro de deitar na cama dos meus pais com o radinho de pilhas colado na orelha, cantando as músicas da torcida, e ouvir Pedro Ernesto Denardin se rasgar de emoções narrando o chapéu e o gol de sem pulo de Rentería.
Eu vi, as noites passarem mais lentamente. Eu vi meu coloradismo 57 vezes maior.
Eu vi o inter segurar o 0×0 em casa e passar para as quartas de finais da América.
Eu vi o Inter desfalcado no Equador, com Marcelo Boeck no gol, perder por 2×1 para a LDU.
Eu vi o inter precisar de um simples 1×0 para se classificar para as semifinais, e chegar no Beira-Rio e fazer 2×0 com direito a gol por cobertura de Rentería.
Eu vi o Inter ir para a sua terceira semifinal de Libertadores.
Eu vi o Inter ir ao Paraguai, visitar o Libertad, de Guiñazu, e suar muito para arrancar um empate.
Eu vi um inter aguerrido, focado, grande. Como há muito tempo eu não via. Eu vi um inter humilde, respeitável, por isso, grande.
Eu vi o Inter a uma vitória dentro de casa para ir às finais e a torcida do clube do povo não cantar vitória antes da hora.
Eu vi o famoso “já ganhei, e já vou comemorar” ser substituído pelo “Eu quero, eu preciso. Eu vou”.
Eu vi o Inter no jogo de volta meter 2×0 no time paraguaio, com Sóbis e Fernandão, expandindo a felicidade para muito além do infinito.
Eu aprendi, realmente, naquelas duas semanas que viriam, o real significado da palavra tensão. Professor: Fernando Carvalho.
Eu vi a bola bater na trave do morumbi, respingar nos pés de sóbis, e encontrar o fundo das redes.
Eu vi um inter que calou 70 mil torcedores são-paulinos, e que não cantou vitória antes da hora.
Eu vi o Inter chegar ao topo da América sem arrotar arrogância.
Eu vi a torcida fazendo uma fila de 5km, uma semana e meia antes do jogo de volta da final da libertadores.
Eu vi torcedores humildes trocando sua casa pela calçada da Padre Cacique para assistir partida mais importante da história.
Eu vi barracas vermelhas, colchões direto no concreto, fogueiras e panelas de comida transformarem a calçada em um lar.
Eu vi milhares de irmãos morando juntos, unidos, na rua mais vermelha de porto alegre, no frio de Agosto de 2006.
Eu vi os ingressos sendo esgotados em menos de duas horas. Eu vi uma torcida mobilizada, indo contra o relógio, e contra os seus próprios fundamentos.
Eu vi Tinga se agachar na área e ser expulso por levantar a camiseta agradecendo a Deus pelo momento mais importante da carreira dele.
Eu vi o gol da vitória, com meus próprios olhos. Eu senti o gol. Eu pulei, eu gritei, para a América toda ouvir.
Eu vi Horácio Helizondo levantar os braços e soprar o apito e o Inter ir aonde ninguém foi. Eu pulei, duas vezes mais alto. Eu chorei, como nunca havia feito antes. Eu abracei a minha mãe. Eu subi em cima da mesa do bar e comecei a bater no teto. Eu comemorei o maior título da história do Inter até as 4h da manhã, na Goethe e na Lima e Silva.
E o mais importante, eu vi um inter HUMILDE vencer o São Paulo. Por isso eu vi um inter grande, um inter vencedor.
Eu vi o Inter não subestimar o adversário, mas respeitá-lo.
Eu vi o Inter ser grande a ponto de olhar apenas a si mesmo, sem julgar os outros, sem contar a vitória antes da hora.
Eu vi o Inter pequeno se transformar, finalmente, em grande, na era Fernando Carvalho.
Deixo aqui, o meu Muito obrigado a ti, Fernando, o eterno. O maior presidente da história.
Por Lucas Pitta
