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O poder da mente

Chegou a noite. O sono está longe de você, e você está eufórico. Assistindo pela TV o jogo que parece valer o ano, você está em sua casa, mas sente que deveria estar lá, no estádio, participando. Você culpa a sua história, suas condições de vida, culpa o seu bolso e a sua família, mas no fundo sente prazer em estar vivo para assistir a mais um inesquecível momento! Os foguetes que impediram os equatorianos de dormirem na noite passada agora estão no Beira-Rio, colorindo o céu de vermelho e branco, pincelando a noite, corroendo as nuvens. A câmera filma a torcida, você não reconhece rostos, mas vês todos juntos em apenas uma face, uma voz. Você sente-se lá dentro, mesmo não estando, apoiando com o coração, empurrando com a alma.

Você, concentrado, deixando a vida de lado, alheio à todos os problemas da vida, assiste à TV, mas enxerga muito além dela. Seu sofá se transforma em uma arquibancada e você agora está na Inferior, ao lado da Popular, próximo à camisa 12, que tapa meio estádio com o bandeirão branco. O clube do povo aparece em campo e você os vê na sua frente. Você canta, pula, berra. Você, acaba de contribuir para mais uma noite histórica. Você não ouve a escalação, nem quer saber dela. Quem entrar lá, você vai apoiar, e vai empurrar até o ultimo minuto. E nesse ritmo, lutar ao lado do Internacional.

Os jogadores pisam no gramado e sentem o solo vibrar. É seu coração batendo neste momento. Seu coração colorado que agüentou tanto tempo de miséria e injúrias, que recentemente explodiu e que você o juntou aos pedaços, seu coração há tanto tempo zombado e esquecido, há tanto tempo visto com olhos de pequeneza, agora bate como nunca. És agora, um genuíno colorado, um torcedor que resiste à tudo. 15 do primeiro tempo, Rojas arrisca de fora da área e é gol deles. O inter reage, mas não chega ao gol de empate. Fim do primeiro tempo, 1×0 para eles. Você olha para baixo, vê abaixo de seus pés o concreto do Beira-Rio esfriar, olha para o seu peito e vê o escudo sagrado das três letras.. Você, com a sua camiseta vermelha dos anos 2000(anos em que vestir a camiseta era por si, um orgulho), com o ramo das velhas conquistas, relembra a década de 70 e todas as outras. Você sente orgulho da sua própria história e dá graças a deus por ser colorado. Perto de você, um rapaz à toda voz grita incessantemente, ele é um guerreiro, um peleador dos pampas, um colorado. Logo a massa esquece o cansaço se junta a ele e você entra no ritmo. O sangue voltando a correr em suas veias, e você sente calor. Você agora está no inferno da Beira-Rio. Você a sua mente.

Os jogadores voltam para o segundo tempo, e você para a sua segunda vida. Os sinalizadores acabaram, os rojões também, a torcida agora se vale apenas da própria voz, e é com ela que vocês transformarão o jogo. 21 minutos, o Inter está no ataque, Giuliano cruza para Alecsandro, de cabeça a bola carinhosamente bate no travessão e sai. O gol, não. Empurrados por você, os jogadores, grandes guerreiros, não desistem – e você também. 37 minutos, Kléber põe na área, Taison cabeceia para trás e Guinazú enche o pé. O capitão de um time focado, o guerreiro que nunca desiste, o Incansável Cholo Loco marca para o Inter, 1×1. Restam 13 minutos de jogo, 13 minutos onde a sua vida está naquela bola. Onde a sua felicidade suprema está em vê-la tocar as redes. O humor do resto da sua semana passa por aquela pelota.

Segundo tempo, 46minutos. A cerveja termina, seu pulmão se cola, sua garganta seca. Mas você é colorado, e um colorado resiste a tudo. O momento é ruim, o colorado está mal e não se encontra mais na partida. Este é o momento em que o time precisa de você. Esta é a hora de mudar, de agir, de apoiar. Você, alheio à todas as dores, continua pulando e cantando. Bolívar bica para a frente, Sandro mata de peito e dá um lançamento venenoso para Alecsandro. O juiz confere o relógio, a partida está próxima do final. Você se lembra de todos os lances que Alecsandro desperdiçou, mas e daí? Passa na sua mente, todos os seus momentos fominhas e varzeanos, mas e daí? Alecsandro é um guerreiro vestido de vermelho, e quem nesta condição estivesse, você apoiaria, lembra? Você e a massa voltam a ficar confiantes e todos os olhares miram aquela pelota. A música não para, o canto continua, a voz está terminando mas você não esmorece. Alecsandro com apenas um toque entorta o zagueiro, e fica livre para marcar o gol. Um grande “ahhh” infla o seu pulmão. O relógio estacionou, o Beira-Rio se cala, a torcida que pulava, agora estupefata e esperançosa parou. Você pisca os olhos e olha para todos os lados, 50 mil irmãos em pé, paralisados, à espera do momento maior. Sua tia, seu pai e irmão sentados no sofá ao lado, mas não importa. O contestado Alecsandro chuta e acerta as redes. O esperado gol da virada chegou! Agora sim, mesmo sem querer você pula, e abraça quem está do lado, não importa quem é. O relógio acelera e você não faz mais noção do passar do tempo. Você se ajoelha no concreto da inferior, onde pulou e cantou por 90 minutos e chora. O gigante não presencia mais uma conquista, mas sim uma vitória, uma demonstração de amor. O calor vai embora, o vento da meia noite chega, a bandeira rubra volta a vibrar no mastro, e a noite está completa. Você se levanta e olha para trás, o sofá está enxarcado. Sua família vê você em outro mundo, pairando a alma há quilômetros dali, num caldeirão de felicidade, no inferno da Beira-Rio. Você entra na segunda porta à direita, liga o chuveiro, toma uma ducha e reflete: Onde eu estive esta noite? O que eu fiz?

Foi a sua mente – aliada com o seu coração – que te transportou para o Beira-Rio. A mente tem esse poder – o de criar mundos e vivências. Se quiseres, poderás viver isso novamente, quantas vezes quiser, você tem o controle sobre os mundos em que vive e ainda não sabe! Você não imagina o quão poderoso você é, você ainda não tem a noção do quão valioso é o seu grito, e é dele que o Internacional precisa nessa noite – mesmo que de longe. Você se enxagua, seca e perfuma. Afasta a colcha e os cobertores e vai dormir, para mais uma louca viagem produzida pela sua mente.

Este foi um texto para levantar os ânimos, como era em 2006. Tempos em que o time era tão bom quanto o de hoje. Tempos em que a torcida transformou o receio em confiança. O medo em coragem. As más notícias em esperança, o cansaço em vibração. Tempos onde nada existia, onde tudo era uma grande fantasia da nossa mente.

Por Lucas Pitta Klein