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O futebol total de Rubens Minelli

Em 1970, quando o Brasil conquistou o tricampeonato mundial de futebol, o mundo se dividia entre o futebol mais cadenciado e técnico dos sulamericanos (futebol arte) e o futebol de mais correria e vigor físico dos europeus (futebol força).

Tese e antítese sempre geram uma síntese. O que ninguém imaginava é que esta síntese já estava surgindo, e em um país sem muita tradição no futebol. Em 1964, no futebol semiprofissional da Holanda, estreava no Ajax um garoto chamado Johann Cruyff. No ano seguinte, chegava ao clube o técnico Rinus Michels. Em 1969, esta dupla levaria o Ajax ao vice-campeonato da Copa dos Campeões da Europa.

Em 1970, outro clube holandês espantaria a Europa. O Feyenoord conquistou o título europeu. Em 1971, jogando um futebol de muita velocidade e criatividade, o Ajax também sagrou-se campeão europeu, feito que repetiria em 1972 e 1973. No último título, o Ajax goleou o Bayern Munique (base da seleção alemã) nas quartas-de-final, por 4×0, derrotou duas vezes o Real Madrid na semifinal, e bateu a Juventus, na final. Após este título, Cruyff saiu do clube, indo se reunir a Rinus Michels no Barcelona, onde o técnico já estava desde 1971.

A dupla se manteve junta também na seleção, que Rinus Michels assumiu em 1974, após vencer o campeonato espanhol com o Barça. A Holanda voltava a uma Copa do Mundo depois de 36 anos, e não seria uma simples coadjuvante, como nas duas vezes anteriores. Com um futebol surpreendente, onde todos defendiam e atacavam, sem guardar posições, e tocando a bola rapidamente, até o gol adversário. Rinus Michels chamava o esquema de futebol total (a fusão do futebol arte e do futebol força), mas a imprensa passou a chamá-lo de carrossel holandês, e a seleção foi batizada de “Laranja Mecânica”. Era um esquema que utilizava as habilidades técnicas dos atletas em favor do futebol coletivo, sem diminuir a beleza do espetáculo.

O resto da história é bem conhecido. Após uma campanha memorável, a Holanda foi derrotada, na final da Copa, pelo futebol força da Alemanha. No mesmo ano o Bayern Munique sagraria-se campeão europeu. O futebol holandês, porém, ainda teria bons resultados com o Feyenoord, campeão da Copa da UEFA em 1974, com o pequeno Twente, vice da mesma competição em 1975, e com a própria seleção, novamente vice-campeã em 1978.

Lances da seleção holandesa na copa de 1974 contra o Uruguai. Aumente o som e veja o que é futebol total!
httpvh://www.youtube.com/watch?v=M5YLG57a2GE

Mas o futebol força não fez escola apenas na Holanda. No distante Brasil, um técnico jovem, que ainda buscava afirmação, apesar de já possuir alguns títulos, admirava o esquema holandês, antes mesmo da Copa. Este técnico era Rubens Minelli.

O campeonato brasileiro de 1973 avançou pelos meses de janeiro e fevereiro de 1974. A 1ª fase, com 40 clubes, encerrou-se em dezembro. O Internacional havia ficado em 11º lugar, classificando-se entre os 20 clubes que continuariam na competição. Em janeiro, porém, não era mais Dino Sani o comandante colorado, e sim Rubens Minelli. O novo técnico levou o Internacional ao Quadrangular Final do campeonato brasileiro, repetindo o feito no ano seguinte, quando a competição foi disputada no 1º semestre. Nos dois anos, a classificação final foi a mesma: 4º lugar.

No campeonato gaúcho de 1974, após a Copa do Mundo, as jogadas coletivas exaustivamente treinadas por Minelli (linha de impedimento, marcação sobre pressão, troca de passes, etc) começaram a dar resultados. O Internacional conquistou o hexacampeonato estadual vencendo todas as 18 partidas da competição.

A temporada de 1975 começou com uma excursão invicta pela Europa. No estadual, o Grêmio tentou, mas não conseguiu evitar o heptacampeonato colorado. No cenário nacional, o Internacional confirmou as expectativas de que fosse o melhor do Brasil, e conquistou seu primeiro título brasileiro (foto acima).

Semi-final e final  do campeonato de 75. Jogos inesquecíveis.
httpvh://www.youtube.com/watch?v=YHBP2htW8O8

Assim como a Seleção Holandesa, o Internacional tinha um grande craque no comando da equipe (Cruyff e Falcão). Dois ponteiros velozes existiam nos dois times. Um grande zagueiro e um goleiro seguro fechavam a equipe. E um grande técnico, para fazer esse elenco render no seu máximo.

Em 1976, o Colorado continuou fazendo grandes campanhas. Se na Libertadores, o clube foi eliminado pelo Cruzeiro,  competição não era prioridade. Nos torneios mais valorizados pelo clube, o título veio: octacampeão gaúcho e bicampeão brasileiro. No final da temporada, o técnico decidiu mudar de ares, e foi para o São Paulo. Jogadores como Figueroa, Manga e Carpegiani também saíram do clube. Mesmo assim, a jogada mais clássica do estilo de marcação sobre pressão do Internacional ocorreu em 1977. Pelo campeonato brasileiro desta temporada, o Colorado enfrentava o Coritiba, na capital paranaense. Um jogador do Coxa recebeu a bola em seu campo, e antes que pudesse pensar no que fazer, foi cercado por um enxame de colorados, que lhe roubaram a bola e avançaram juntos até o gol.

Número de Rubens Minelli no Internacional (apenas jogos oficiais):

PartidasVitóriasEmpatesDerrotas
Campeonato Gaúcho92552314
Campeonato Brasileiro726882
Copa Libertadores6312
Total1701203218

Por Raul Pons